
À primeira vista, falar de desejo pode parecer algo simples, quase óbvio. Desejamos comida quando temos fome, descanso quando estamos cansados e afeto quando nos sentimos sós. Contudo, para Baruch de Espinosa, o desejo não é apenas mais um elemento da vida humana. Ele é, de maneira radical, a própria essência do homem. Não algo que temos, mas algo que somos.
Essa afirmação aparece de forma cristalina na Ética, quando Espinosa define o desejo como:
“O Desejo é a própria essência do homem enquanto é concebida determinada a fazer [agir] algo por uma dada afecção sua qualquer.”
(Ética III, Definição dos Afetos)
Essa frase, aparentemente densa, carrega uma das ideias mais revolucionárias da filosofia moderna. Para compreendê-la, é preciso abandonar a noção moralista do desejo como fraqueza ou excesso e passar a entendê-lo como o motor fundamental da existência.
O Desejo Não é um Acréscimo: é Constituição

Espinosa, a princípio, rompe com a tradição que via o desejo como algo a ser domado pela razão. Para ele, o desejo não é um acidente, mas aquilo que nos define. No entanto, há uma distinção técnica importante: o que move todos os seres é o Apetite (appetitus), que é o esforço para perseverar na existência. Quando esse apetite se torna consciente de si mesmo, Espinosa o chama de Desejo (cupiditas).
Assim como o fogo queima, o ser humano deseja. Não porque escolheu, mas porque existir é esforçar-se para continuar existindo — conceito que ele chama de Conatus.
De maneira idêntica, desejar é a forma concreta pela qual esse esforço se manifesta na vida cotidiana. Toda ação humana, desde a mais simples até a mais complexa, nasce desse impulso fundamental.
Desejo é Sempre Ação Em Potência

A definição segue: o desejo é a essência do homem “enquanto é concebida determinada a fazer algo”. Isso significa que o desejo nunca é passivo ou puramente abstrato; ele é uma força orientada que nos coloca em movimento.
Diferente do que sugere o senso comum, Espinosa nega o “livre-arbítrio” absoluto. Não desejamos algo porque é “bom”; nós dizemos que algo é “bom” porque o desejamos. O desejo é a causa, não o efeito de um julgamento moral. Em outras palavras, para Espinosa, primeiro sentimos o desejo e só depois justificamos dizendo que aquilo é bom. Nossas escolhas não nascem totalmente livres, mas dos desejos que já nos movem.
Atualmente, quando falamos em “falta de motivação”, o que ocorre, sob a ótica spinozana, não é o desaparecimento do desejo, mas uma obstrução da nossa potência de agir por afetos contrários. O medo, tristeza, culpa ou frustração — bloqueiam nossa capacidade de agir. O desejo continua existindo, mas nossa energia para colocá-lo em prática fica enfraquecida por esses afetos contrários.
Afetos: O Leme do Desejo

Aqui entra a terceira parte essencial da definição: o desejo é determinado “por uma dada afecção sua qualquer”. Em termos simples, isso significa que o desejo nunca surge sozinho; ele sempre vem acompanhado de um afeto — alegria, tristeza, medo, esperança.
Espinosa compreende os afetos como variações da nossa potência de agir. Quando algo aumenta essa potência, sentimos alegria; quando a diminui, sentimos tristeza. O desejo, do mesmo modo, segue essas variações.
Por exemplo, uma pessoa que associa estudo à alegria tende a desejar aprender mais. Contudo, alguém que associa o mesmo estudo à humilhação ou ao fracasso pode desenvolver aversão ao conhecimento. O desejo continua ali, apenas orientado de outra forma. O autoconhecimento, portanto, consiste em investigar quais afetos estão moldando a direção do nosso desejo, em vez de apenas tentar reprimi-los pela força de vontade — o que Espinosa considera uma ilusão.
Liberdade e Autoconhecimento
O objetivo final de Espinosa não é o controle moral, mas o aumento da liberdade. Para ele, ser livre não é agir sem causas (isso é impossível), mas agir a partir de causas compreendidas.
“A liberdade não consiste jamais em uma indeterminação, mas numa determinação que se põe a si mesma. […] A liberdade é a afirmação da necessidade, não a negação dela. Ser livre é compreender as causas pelas quais somos determinados e, compreendendo-as, fazer com que esta determinação seja a expressão da nossa própria potência de agir (potentia agendi).”
(Tradução livre a partir de DELEUZE, Spinoza: Philosophie pratique, Les Éditions de Minuit, 1981, p. 70-71).
Conforme ele explica na Ética, quanto mais somos guiados por afetos passivos — aqueles que não entendemos —, mais somos arrastados pelas circunstâncias. Por outro lado, quanto mais compreendemos as causas dos nossos desejos, mais ativos nos tornamos.
Isso significa que o autoconhecimento não elimina o desejo, mas o transforma. Ele deixa de ser um impulso cego e passa a ser uma força consciente, alinhada com aquilo que realmente aumenta nossa potência de existir.
Por exemplo, imagine uma pessoa com sede. A sede é uma afecção corporal que gera o desejo de beber água. Nesse caso, não há conflito: o desejo conduz diretamente à ação que preserva a vida.
Agora, pense em desejos mais complexos — reconhecimento social, sucesso profissional ou aprovação afetiva. Em todos eles, o mecanismo é o mesmo. A diferença está na clareza que temos sobre suas causas.
Assim como no exemplo da sede, quanto mais entendemos o que nos move, menos somos escravos de ilusões e expectativas externas.
O Que Isso Significa Para Nós Hoje?

Vivemos em uma cultura de consumo que tenta sequestrar nosso desejo, direcionando nosso Conatus para objetos que, muitas vezes, diminuem nossa potência a longo prazo (ansiedade, comparação, exaustão). Espinosa nos oferece uma chave prática:
Análise das Causas: Em vez de culpa, perguntar: “O que em mim está produzindo esse desejo?”.
Gestão da Potência: Priorizar encontros e atividades que gerem afetos de alegria.
Ética da Alegria: Construir relações que aumentem a potência mútua, em vez de relações baseadas na servidão ou no medo.
Imagine alguém que passa muito tempo nas redes sociais. Ao ver corpos “perfeitos” e vidas idealizadas, essa pessoa começa a desejar consumir mais, mudar o corpo ou provar algo aos outros. No curto prazo, isso parece motivador, mas com o tempo gera ansiedade, comparação e cansaço, diminuindo sua potência de agir.
Pela ótica de Espinosa:
Análise das causas: em vez de se culpar, a pessoa pergunta: “Esse desejo vem de onde? Da comparação? Da insegurança?”
Gestão da potência: ela passa a priorizar atividades que geram alegria real, como exercício por prazer, estudo, arte ou boas conversas.
Ética da alegria: constrói relações que apoiam e fortalecem, e não que exploram o medo ou a necessidade de validação.
Definitivamente, para Espinosa, não se trata de desejar menos, mas de desejar melhor. Assim, o desejo deixa de ser sequestrado pelo consumo e passa a fortalecer a vida.
Conclusão: Desejar é Existir
Logo, o desejo não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser compreendida. Ele é a expressão mais direta da nossa existência em ação. Negá-lo é negar a si mesmo; compreendê-lo é abrir caminho para uma vida mais livre e potente.
Em suma, Espinosa nos convida a uma mudança profunda de perspectiva: não somos seres que desejam ocasionalmente, somos seres que desejam necessariamente. E é justamente nesse reconhecimento que começa a verdadeira liberdade.
Referências sugeridas para aprofundamento:
SPINOZA, Baruch. Ética. (Especialmente a Parte III: “A ORIGEM E A NATUREZA DOS AFETOS”).
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