Immanuel Kant: Agir pelo que é Certo, não pelo que Convém

Immanuel Kant: Agir pelo que é Certo, não pelo que Convém

Muitas pessoas imaginam a filosofia moral como algo abstrato e longe da realidade. No entanto, Immanuel Kant dedicou sua vida a responder uma pergunta que fazemos todos os dias: “O que eu devo fazer?”. Suas ideias não servem apenas para livros; elas ajudam a resolver o conflito entre o que é fácil (o benefício imediato) e o que é íntegro (o dever moral).

A vida regrada de Immanuel Kant

Kant nasceu em 22 de abril de 1724 na cidade de Königsberg. Na época, esta cidade era a capital do Reino da Prússia e um vibrante centro intelectual e comercial da cultura alemã. Ele levava uma vida tão disciplinada que os vizinhos ajustavam seus relógios quando ele saía para caminhar. Mas essa rotina não era obsessão; era autonomia. Para Kant, ser livre não é fazer o que se tem vontade, mas sim ter o poder de seguir as leis que a sua própria razão criou.

O Teste da Verdade: Interesse x Dever

Kant utiliza um exemplo clássico, conhecido como o Exemplo do Comerciante, para explicar o valor de uma ação:

  • Ação por Interesse: Um comerciante cobra o preço justo de um cliente inexperiente apenas para manter sua boa reputação e não perder vendas. Ele age corretamente, mas sua motivação é egoísta. Para Kant, isso não tem valor moral real.

  • Ação por Dever: O comerciante cobra o preço justo porque acredita que é o certo a se fazer, independentemente se isso vai ou não trazer mais lucro. Aqui existe valor moral.

Exemplo Simples: Você devolve uma carteira achada na rua porque espera uma recompensa (interesse) ou porque acredita que ninguém deve ficar com o que não lhe pertence (dever)?

O Imperativo Categórico: A Regra de Ouro da Razão

O Imperativo Categórico: A Regra de Ouro da Razão

Um dos conceitos mais conhecidos de Kant é o imperativo categórico. Apesar do nome complexo, sua ideia pode ser explicada de forma acessível. Ele propõe que devemos agir apenas segundo regras que gostaríamos que todas as pessoas seguissem.

Assim também, antes de tomar uma decisão, podemos nos perguntar: e se todo mundo fizesse isso? Se a resposta levar ao caos, à injustiça ou à perda de confiança, então aquela ação não é moralmente correta.

  • A Fórmula da Lei Universal: “Eu gostaria que todas as pessoas do mundo agissem exatamente como eu estou agindo agora?”

    • Se você pensa em mentir, imagine um mundo onde todos mentem. A confiança deixaria de existir e a própria mentira perderia o sentido.

  • A Fórmula da Humanidade: “Estou usando essa pessoa apenas como um degrau (ferramenta) para conseguir algo, ou estou respeitando a dignidade dela?”

    • Kant defende que as pessoas nunca devem ser usadas como “coisas”.

Então, pequenas escolhas cotidianas — furar uma fila, mentir por conveniência, tirar vantagem de alguém — ganham um peso ético maior quando vistas por essa lente. Kant nos lembra que cada ação contribui para o tipo de sociedade que estamos construindo.

Kant e as Escolhas Modernas

 

Frequentemente, a vida moderna nos empurra para decisões rápidas e pragmáticas. Ao mesmo tempo, somos incentivados a pensar em resultados, métricas e benefícios pessoais. Porém, Kant propõe um caminho diferente: agir com coerência interna.

Por exemplo, no ambiente de trabalho, muitas pessoas enfrentam dilemas éticos silenciosos — omitir informações, assumir créditos indevidos ou agir contra valores pessoais para agradar superiores. Ainda assim, a filosofia kantiana sugere que preservar a dignidade e a integridade vale mais do que ganhos imediatos.

Posteriormente, escolhas feitas por princípio tendem a fortalecer o caráter. Eventualmente, isso se reflete em relações mais autênticas, maior autoestima e uma sensação de coerência interna difícil de alcançar quando se vive apenas por conveniência.

Por Que Kant Ainda Importa?

Viver pelos princípios de Kant não torna a vida mais fácil — muitas vezes a torna mais difícil, pois exige dizer “não” a vantagens injustas. No entanto, essa prática constrói o que a psicologia chama de Eficácia Pessoal e Autoestima Real.

Ao escolher o certo em vez do conveniente, você deixa de ser um escravo dos seus impulsos e se torna o mestre da sua própria história. A pergunta de Kant continua atual: “Isso que eu vou fazer agora, protege ou destrói a dignidade humana?”

Finalmente, Kant nos oferece algo raro em tempos de relativismo moral: um critério interno para agir. Ele nos lembra que liberdade não é fazer tudo o que se quer, mas escolher conscientemente aquilo que é correto.

Por fim, viver segundo princípios não torna a vida mais fácil — mas a torna mais significativa. Logo, ao invés de perguntar constantemente “o que eu ganho com isso?”, talvez a pergunta mais transformadora seja: isso respeita a dignidade humana, inclusive a minha?

Kant nos ensina que agir pelo que é certo, mesmo quando não convém, é um dos caminhos mais sólidos para uma vida ética, consciente e verdadeiramente livre.

 

Como essas ideias aparecem fora dos livros de filosofia?
Se você quer ver como princípios éticos, como os defendidos por Kant, se manifestam de forma concreta e cotidiana, vale a leitura do artigo A Moralidade de Viktor Navorski: Dilemas Éticos em ‘O Terminal’. Nele, analisamos como um personagem do filme “O Terminal”onde Viktor Navorski (Tom Hanks) escolhe agir pelo que é certo — mesmo quando isso não lhe traz vantagens imediatas.
Uma reflexão profunda sobre moralidade, dever e escolhas reais.

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